O olhar atento de Erni Böck, 79 anos, ajuda a contar boa parte da história de Agudo. Mais do que apenas registrar imagens, ele eternizou, por meio das lentes da câmera, os principais fatos e transformações do município. A reportagem do Jornal Cidades do Vale foi conhecer um pouco mais da trajetória de quem fez da fotografia um compromisso com a memória coletiva.
Servidor público aposentado, Erni teve o primeiro contato com a fotografia ainda muito jovem, com 17 anos. Segundo ele, em uma das viagens do pastor Rudolf Brauer à Alemanha, acabou ficando como caseiro e, no retorno, foi surpreendido com um presente que mudaria sua vida. “Eu fiquei de caseiro para ele e quando ele voltou, me trouxe a câmera. Eu nem sabia como mexer, mas foi ali que tive meu primeiro contato com a fotografia. Tenho ela guardada até hoje”, recorda.
Em 1996, ao se aposentar do serviço público, a fotografia passou a ocupar um espaço ainda maior em seu cotidiano. “Foi nesse período que a fotografia ficou mais séria na minha vida, podemos dizer mais profissional. Registrei momentos importantes, como a construção da barragem. Acompanhei toda a obra, do início ao fim de 1998 a 2001. A partir daí, a fotografia passou a fazer parte da minha vida, inclusive como fonte de renda”, relembra.
Alguns registros permanecem vivos na memória de Erni. Um deles é a queda da ponte sobre o Rio Jacuí, em 2010, durante uma enchente histórica. “Eu estava percorrendo os pontos de alagamento e me deslocava em direção à ponte quando parei no Cerro Chato, um pouco antes, porque vi um menino carregando uma bateria, o instrumento musical no meio da água. Quando voltei para o carro, ouvi na rádio local o desespero do repórter noticiando a queda da ponte. Gelei na hora, primeiro por não entender direito o que tinha acontecido e depois porque, se eu não tivesse parado ali, certamente estaria em cima da ponte fotografando”, contou.
Outro capítulo marcante em sua trajetória são os registros da neve em Agudo, fenômeno raro no município. “Um amigo que morava na Linha dos Pomeranos me avisava sobre a situação do tempo. Quando havia possibilidade de neve, eu ia para lá. Presenciei três vezes: em 1984, que foi a mais intensa, depois em 1994 e, por fim, em 2000. São momentos que me marcaram muito e que estão guardados em imagens”, relata.
Entre os fatos mais recentes, Erni destaca o acompanhamento da pavimentação asfáltica da Avenida Euclides Kliemann. “Fiz todo o registro do trabalho e fiquei muito feliz em receber o reconhecimento da prefeitura no dia da inauguração. Foram muitos momentos importantes ao longo desses anos”, afirma.
O acervo de Erni impressiona: são cerca de 330 mil fotografias e 120 mil vídeos. “Tenho tudo guardado. Antes da fotografia digital, trabalhávamos com filmes, então digitalizei todo esse material. Está tudo no computador, são cerca de cinco terabytes de arquivos”, explica.
Ele também relembra os tempos em que a fotografia exigia ainda mais paciência. As imagens em preto e branco eram reveladas por ele mesmo, em um laboratório montado em casa. Já as coloridas, inicialmente, eram enviadas para revelação na Amazônia, pelos Correios. “Depois passaram a ir para São Paulo, Santa Maria e, por fim, eu levava para o Estúdio Gama, em Faxinal do Soturno. Quando era na Amazônia, levava de duas a três semanas para a foto voltar. A gente fotografava e esperava até 14 dias para ver o resultado, muito diferente de hoje, quando tudo é instantâneo”, comenta.
Ao longo da carreira, Erni também atuou intensamente na cobertura de eventos. “Tinha uma microempresa, contratava pessoas para ajudar e fazíamos eventos praticamente todos os fins de semana: festas de 15 anos, bodas, formaturas. Era possível ter uma boa renda com isso, mas tudo mudou com a chegada do celular”, observa.
Em 2020, durante a pandemia, Erni encerrou oficialmente a atividade profissional na fotografia. “Fechei a empresa, mas sigo fotografando, porque gosto muito. Hoje faço mais por hobby. Fico feliz com tudo o que foi construído, foram muitos momentos eternizados, alguns felizes, outros nem tanto. Uma frase que escutei e levo para a vida resume bem isso: ‘Uma foto eterniza momentos, aqueles que não vão se repetir mais’”, conclui.
O Fusca do faxinalense é do ano 1976, modelo que completa 50 anos de fabricação
Poucos carros marcaram tanto a história quanto o Fusca. Verdadeiro ícone mundial, o modelo é cercado por histórias, curiosidades e por uma paixão que atravessa gerações.
Nesta reportagem, vamos falar sobre esse clássico atemporal e conhecer um pouco mais da relação do faxinalense Adair Ruviaro, 70 anos, com o seu Fusca.
Adair relembra como foi o primeiro contato com o modelo. “O gosto por Fusca começou quando eu trabalhava na Rádio São Roque, tinha cerca de 20 anos. Eu era vendedor à época e saía com o Azulão da rádio, como a gente o chamava. Ali comecei a gostar, mas era mais um apreço, pois eu trabalhava com ele. Lembro que naquela época, até mesmo fizemos algumas viagens a Porto Alegre, a serviço, o Melão e eu”, conta. Mais tarde, Adair deixou a rádio para concluir a faculdade de Direito, profissão que exerce até hoje.
Ao longo da vida, Adair teve três Fuscas. “Os dois primeiros não eram conservados. Este terceiro, sim. Estou com ele há aproximadamente 18 anos. Hoje, além de um mecânico em Faxinal, tenho em Santa Maria, um especialista em carros antigos, o que me permite manter uma boa manutenção”, explica.
A história com o Fusca amarelo começou após um atendimento profissional. “Uma Senhora do interior de Restinga veio fazer um serviço e sempre chegava de Fusca. Perguntei se ela queria me vender, mas ela disse que não. Com o passar do tempo, soube que ela havia falecido, então entrei em contato com os seus familiares que possibilitaram a aquisição. Eles aceitaram, mas necessitavam regularizar a documentação. Um dia me ligaram dizendo que eu poderia buscá-lo, e desde então estou com ele”, relata.
O carro, segundo Adair, não fica parado. “Eu uso bastante. Vou para o interior, não sou daqueles colecionadores que só guardam. Tem lugares onde o meu outro automóvel não vai, mas o Fusca consegue. Faço a manutenção direitinho, mas a ideia é usar, vou com ele inclusive seguidamente a Santa Maria”, afirma.
O Fusca também chama a atenção por onde passa. Adair conta que é comum as pessoas pedirem para tirar fotos. “Quem gosta percebe que ele é bem conservado. Sou o seu segundo proprietário e quando comprei, tinha cerca de 40 mil quilômetros rodados e hoje ele mantém mais de 80% das peças originais”. Um fato curioso é que o veículo já foi utilizado em dois casamentos: o sócio Jonas levou a noiva até a cerimônia na igreja das Dores em Santa Maria com o Fusca, e a faxinalense Márcia Dalmolin também escolheu o carro para o seu casamento.
A paixão pelo Fusca também passa de geração em geração. A neta Laura, quando vem a Faxinal, já tem um carro preferido. “Ela sempre pede para andar de Fusca, e a gente vai. É uma alegria para ela e para mim poder proporcionar isso”, comenta.
Questionado sobre uma possível venda, Adair é direto na resposta. “Não vendo. Já me ofereceram valores, mas nem sei como está o mercado, porque não procuro saber. Não vendo”, finaliza. O Fusca de Adair é do ano 1976, modelo que completa 50 anos de fabricação.
Saiba mais sobre a história do Fusca:
O Fusca teve sua origem em 1938, na Alemanha, mas sua produção em larga escala foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial, sendo retomada em 1945. No Brasil, o modelo chegou em 1950, inicialmente importado, e passou a ser produzido nacionalmente pela Volkswagen em 1959, na fábrica de São Bernardo do Campo (SP).
Ao longo das décadas, tornou-se o carro mais popular do país, com produção contínua até 1986, quando saiu de linha pela primeira vez. O modelo retornou por um período entre 1993 e 1996, atendendo a um incentivo governamental, e teve sua produção encerrada definitivamente no Brasil em 1996. Mesmo após o fim da fabricação, o Fusca permanece como um dos automóveis mais emblemáticos da história brasileira.
Vicente de Mello, 83 anos, morador de Faxinal do Soturno, que desde menino sonhava em voar e, com esforço e persistência, transformou o sonho de infância em realidade, cruzando os céus da região e de fora dela
O Dia do Aviador, celebrado em 23 de outubro, homenageia os profissionais que dedicam suas vidas à aviação e simboliza o espírito de coragem, inovação e liberdade que impulsiona o homem a conquistar os céus. A data marca o feito histórico de Alberto Santos Dumont, que, em 1906, realizou o primeiro voo homologado de uma aeronave mais pesada que o ar, o 14-Bis, em Paris. Além de recordar essa conquista pioneira, o dia também reconhece a importância da aviação civil e militar para o desenvolvimento, a integração e a defesa do país.
Para marcar a data, a reportagem do Jornal Cidades do Vale foi conhecer a história de Vicente de Mello, 83 anos, morador de Faxinal do Soturno, que desde menino sonhava em voar e, com esforço e persistência, transformou o sonho de infância em realidade, cruzando os céus da região e de fora dela.
Vicente conta que desde cedo precisou trabalhar na roça, mas a aviação sempre teve um espaço nos seus planos de vida. “Eu pensava muito, e quando fui crescendo, percebi também que era algo caro, não era tão acessível assim, mas eu não desisti. A vida me trouxe muitas experiências e desafios, desde novo, saí de casa, e fui construindo a minha trajetória”, contou ele.
Vicente viajou o país dentro da cabine de um caminhão, e foi desse trabalho que conseguiu realizar o sonho da infância. “Em 1969 eu iniciei um curso teórico para ser piloto, mas era muito difícil, muita matemática, física, e conhecimento gerais, tudo era muito exato, na aviação não existe ‘e se’, é, ou não é, tem que ser ou não, acabei parando. Mais tarde retomei, era em Santa Maria, o Aero Clube da Base Aérea as aulas, e de 20 alunos, três passaram para a fase prática, e entre eles estava eu, o primeiro classificado, mais uma mulher, e mais um homem, foi desafiador, mas a minha experiência de vida, de conhecimento, me ajudou muito.”
Após a teoria, Vicente passou por diversos exames, um deles psicotécnico, que ele considera importantíssimo para quem vai pilotar. “É neste exame que muito se define, e que vai fazer sentido lá na frente, quando a gente passar por situações. É avaliado as nossas reações em caso de perigo, medo, e eu consegui passar”, contou. Já no aeroclube, o qual frequentava nos finais de semana, quando conciliava com o trabalho no caminhão, Vicente conta que não perdia oportunidades. “Eu me dedicava bastante, sempre que tinha voo, eu ia. Eu sempre achei muito fácil pilotar, ainda acho que tem coisas que fiz e faço que são muito mais difíceis”. Vicente recebeu sua Carteira Oficial do Ministério da Aeronáutica, como aeronauta e piloto, com 36 horas de vôo. E com 200 horas praticadas, Vicente foi chamado pelo Comandante da Fab da Base Aérea para entrega de outra carteira como piloto da reserva.
Entre os fatos curiosos da época, ele lembra que médicos receitavam voos para o tratamento da asma. “Muitos voos eu fiz com crianças que eram encaminhadas pelos médicos para o aeroclube. De acordo com eles, era necessário fazer voos de uma hora, a quatro mil e quinhentos metros de altura. Isso foi algo que me marcou e lembro até hoje.”
Ao longo do tempo, Vicente fez diversos voos. Os principais destinos das viagens eram Porto Alegre, Torres, Capão da Canoa e Lages, em Santa Catarina, onde, conforme ele, eram feitos os consertos dos aviões, pois lá havia uma oficina especializada e de referência.
Na memória, além dos grandes feitos, Vicente guarda também momentos de apreensão. Foram dois acidentes que ele detalhou à reportagem. O primeiro aconteceu voltando de São Sepé. “Estourou o motor, e eu precisei usar os ensinamentos que tive durante o curso, o primeiro deles, agilidade e reflexos rápidos, o que eu particularmente acho que são qualidades que o ser humano tem e não sabe. Com muita cautela, recebi as instruções da torre de controle e consegui fazer o pouso. Lembro que tinha outro avião também pousando e consegui parar o avião praticamente embaixo da asa dele, e evitei algo pior. Foi um susto, mas que me fez perceber que o meu equilíbrio emocional estava em dia, se eu me desesperasse poderia ter sido pior e quem sabe não estaria aqui para contar essa história”, disse ele.
O segundo acidente ocorreu na Quarta Colônia. Vicente conta que recebeu o pedido da Paróquia São Roque, pois, estavam em preparativos da Festa do Padroeiro do Município de Faxinal do Soturno, para espalhar os panfletos de propaganda da festa do padroeiro, o qual, foi ofertado o voo como patrocínio, ao sobrevoar a região, na localidade de Sítio dos Mellos, percebi que o avião estava perdendo a força no motor. "Estava presente no voo eu como piloto, e o amigo Amir Trevisan, Cacique, (Em memorium), ele me acompanhava para fins de soltar os panfletos da festa, e tirar fotos das paisagens. E estava tudo certo, até que percebi uma diminuição na rotação, tentei acelerar, e o avião não respondeu, vou precisar pousar rapidamente, em segundos, mapeei a região em que estávamos, e tive rápida decisão de aterrissar o avião com segurança na estrada de acesso a cidade de Ivorá, o qual, não tivemos ferimentos algum, ficamos rindo do acontecido, ainda comentamos, estamos firmes, salvos e fortes, não foi desta vez que partimos desta, Lembro que um dentista que atuava na região chegou e perguntou se já tinham levado os feridos, e eu disse 'não, somos nós dois, estamos inteiros'. O acidente ocorreu em 12 de agosto de 1977 e Vicente conta que não cobrou nada da comunidade para largar os panfletos nas cidades.
Mesmo com os sustos, Vicente seguiu fazendo voos. Em 1984, ele encerrou a vida de piloto e fez o último voo para Pelotas. “Foi um período muito feliz, eu sempre quis, e vivi isso. Aprendi muito, conheci pessoas, foi uma época que eu recordo com muito carinho. Não sinto saudades, porque acho que foi o tempo que tinha que ser.”
Adepto da leitura, Vicente se mantém ativo. “Conheço lugares que nunca fui, mas que a leitura me permitiu. Sempre gostei de me informar, de atualizar, saber coisas diferentes. E assim fui norteando a minha trajetória. Tive dificuldades, desafios, mas eu olho para trás e vejo o quanto valeu a pena. Sou muito discreto, busco seguir o meu caminho. Sempre desejando o bem para todos”, finalizou.
O casal Isadora Dalmolin Tronco e Paulo Cesar Landim Filho, natural de Faxinal do Soturno, e atualmente moradores de Capão da Canoa, teve uma experiência emocionante e inesquecível durante a audiência do Papa Leão na Praça São Pedro, em Roma. O momento especial aconteceu quando o Pontífice pegou no colo o filho do casal, Miguel Dalmolin Landim, ainda bebê, em meio a mais de 60 mil pessoas presentes. Confira a entrevista da reportagem do jornal Cidades do Vale com a mãe do Miguel, isadora, que é filha da professora Márcia Dalmolin:
JCV - Como foi o instante em que o Papa pegou seu filho no colo?
Foi um momento de pura emoção. Quando o Papa o pegou no colo, parecia que o tempo tinha parado. Ver o Santo Padre, com tanta ternura e simplicidade, acolher o Miguel foi algo indescritível, uma daquelas cenas que a gente sabe que vai guardar pra sempre na memória.
JCV - Você esperava que algo assim acontecesse ou foi totalmente inesperado?
Totalmente inesperado. Estávamos felizes apenas por participar da audiência e ver o Papa de perto já seria uma bênção, já que havia mais de 60 mil pessoas na Praça São Pedro para a audiência dessa quarta-feira. Mas quando o papamóvel se aproximou e o segurança pegou o Miguel, entregando-o para o Papa, foi um presente que jamais poderíamos imaginar.
JCV - Qual foi a sua reação ao ver o Papa tão próximo de vocês?
Meu coração disparou. Eu senti uma mistura de alegria, reverência e uma gratidão imensa. É impossível não se emocionar vendo o Papa tão perto, com aquele olhar sereno e aquele gesto de amor tão genuíno.
JCV - O que passou pela sua cabeça naquele momento?
Pensei em como Deus é bom e em como a fé realmente se manifesta nos detalhes. Lembrei de todas as orações que fiz desde a gestação e senti como se o Miguel estivesse sendo colocado sob a proteção direta de Deus, pelas mãos do Papa Leão.
JCV - Como você descreveria a emoção de ver seu filho nos braços do Papa?
É uma emoção que ultrapassa as palavras. Foi como ver um encontro entre o Céu e a Terra. Meu filho, ainda tão pequeno, sendo acolhido por aquele que representa Cristo aqui. É um símbolo de fé e amor que vai nos acompanhar por toda a vida.
JCV - Como você vai contar essa história para ele quando for maior?
Vou contar que, ainda bebê, ele foi abraçado pelo Papa e abençoado de uma forma muito especial. Que esse gesto seja para ele um lembrete de que foi amado e abençoado desde o início, e que deve sempre seguir com fé, humildade e amor no coração.
JCV - O que você leva de experiência para a vida?
Levo a certeza de que Deus se manifesta nos momentos mais simples e inesperados. Foi um convite à fé viva, à gratidão e à lembrança de que somos pequenos diante da grandiosidade do amor divino.
JCV - Algo que queira acrescentar:
A presença do Papa Leão tem uma doçura difícil de explicar. Ele transmite paz apenas com o olhar. Ver o Miguel ser acolhido por ele foi mais do que uma bênção — foi um sinal concreto de amor e esperança em tempos em que o mundo tanto precisa disso.
Foi o tipo de experiência que marca não só uma viagem, mas uma vida inteira.
Saulo Antônio Zasso, 68 anos desde pequeno, acompanhado do pai e do avô, aprendeu o ofício de fazer botas e chinelos de forma artesanal
O sapateiro é o profissional responsável por confeccionar, consertar e restaurar calçados, preservando uma arte manual que atravessa gerações. Em tempos de produção em massa, o ofício resiste como símbolo de paciência, precisão e tradição. O Jornal Cidades do Vale foi conhecer a história de Saulo Antônio Zasso, 68 anos, natural de Nova Palma e morador de Faxinal do Soturno desde 1988. Desde pequeno, acompanhado do pai e do avô, aprendeu o ofício de fazer botas e chinelos de forma artesanal.
Zasso explica que o processo de produção exige atenção e cuidado em cada detalhe, diferindo totalmente da rotina industrial. “É tudo muito personalizado. Os cortes do couro são feitos na faca, é muito mais artesanal, e por isso o produto acaba sendo diferenciado”, contou.
Segundo ele, as botas e chinelos saem prontos de seu pequeno ateliê. “Faço tudo aqui. O couro vem de Erechim e, conforme os moldes, faço os cortes e inicio a produção. Trabalho ainda com máquinas antigas, o que dá um toque especial ao resultado. Hoje tudo é muito moderno”, explica.
Recentemente, Zasso se sentiu desafiado após saber da exposição no Museu Histórico Municipal de Nova Palma, que apresentou as botas de Francisco Guerreiro, o Gigante. A mostra ocorreu após uma negociação com o Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Como as botas originais retornariam à capital, ele decidiu confeccionar uma réplica.
“Fiquei enlouquecido. Ia lá ver, fazia as medidas pelo vidro. Foi desafiador. Em casa, ficava só pensando nas botas. Levei três semanas para terminá-las. Ficaram bem parecidas, até. Queria que o meu pai tivesse vivo para ver isso”, emociona-se.
Além das botas e chinelos, Zasso também demonstra grande apreço por outras peças artesanais. Cada objeto carrega uma história: como foi adquirido, o que o inspirou e qual foi o processo de criação. Pela casa estão espalhados os objetos produzidos por ele. “Estou sempre atento, tenho um olhar diferente. Penso que tudo pode se transformar. Às vezes, um pedaço de madeira que passa despercebido para os outros vira algo especial. Meu problema é que me apego demais às peças, aí fico com pena de vender”, diz, entre risos.
Por fim, Zasso destaca o gosto pela profissão e pelas peças que produz. “O segredo é gostar do que faz, a minha vida inteira foi em função disso, cresci vendo meu pai, meu avô fazendo isso. Estou sempre pensando em algo que dá para fazer, tem gente que acha estranho, mas eu sou feliz fazendo isso”, finaliza.
Rômulo Bianchi, de 86 anos, com a memória em dia, recebeu a reportagem do Jornal Cidades do Vale para relembrar o passado e refletir sobre os desafios do presente
O moinho é mais do que uma simples máquina de moer grãos. Em suas engrenagens estão guardadas memórias de trabalho, sustento e dedicação. Essa definição cabe perfeitamente à história do Moinho Bianchi, em Silveira Martins, liderado por Rômulo Bianchi, de 86 anos, que com a memória em dia, recebeu a reportagem do Jornal Cidades do Vale para relembrar o passado e refletir sobre os desafios do presente.
A trajetória começou em 1966, quando, com apoio financeiro do pai, Rômulo deu início ao empreendimento. Ele recorda que uma família da região já realizava esse trabalho, mas após uma enchente que destruiu a roda do antigo moinho, a atividade foi interrompida. “Perguntamos se eles tinham interesse em retomar, disseram que não. Então, entendendo a necessidade da época e com a ajuda do meu pai, começamos o trabalho. Nos primeiros anos moíamos trigo e depois passamos para o milho, que é feito até hoje”, contou.
Com o passar do tempo, o trigo deixou de ser viável. “Era mais caro comprar trigo do que a farinha pronta, então não havia lucro. Em 1972, passamos a trabalhar só com milho. Tivemos que adaptar as máquinas, e desde então seguimos com esse produto. Temos a nossa marca, a Bianchi, e também prestamos serviço para outras marcas”, explicou.
Olhando para trás, Rômulo compara o cenário de ontem e de hoje. “Antigamente se ganhava mais dinheiro. Tudo o que conquistei saiu daqui, foi um período muito bom. Agora está difícil, seguimos quase por teimosia (risos). São muitas exigências, adequações, vigilância sanitária, bombeiros, tudo custa dinheiro. Minha vida foi aqui dentro, mas no futuro é algo que teremos que repensar.”
A tradição já passou para as mãos do filho Ricardo, que assumiu em 1990. “Eu só ajudo, mas ele está à frente. Foram 59 anos aqui dentro, muito pó na roupa, as mãos calejadas de abrir saquinhos. Antes tudo era manual, hoje já está mais automatizado. O Júnior, meu outro filho, seguiu outro ramo em Santa Maria”, relatou.
Além do moinho, a família também atua na agricultura, especialmente na produção de soja, atividade iniciada em 1994, em uma área de 300 hectares. “É sempre uma luta, um ano melhor, outro nem tanto, mas seguimos com muito esforço, como todo mundo”, resumiu Rômulo.
O moinho Bianchi, é um dos únicos que permanece ativo na região.
Aos 72 anos, Marite Fátima Giuliani da Costa se despede de uma trajetória marcada pela dedicação à dança tradicionalista e à formação de novas gerações. Seu envolvimento começou ainda jovem, na primeira Invernada de Danças do CTG Coração do Rio Grande, após convite do patrono Eusébio Roque Busanello e da professora Aracy Cervo, referência em danças tradicionais de Cruz Alta. “Dancei por muitos anos, tendo sempre bons professores, e desde o primeiro instante senti que viveria para sempre esta emoção”, lembra Marite.
Ao longo de sua trajetória, ela assumiu diversos cargos no CTG: posteira da Invernada Artística, coordenadora cultural, instrutora de danças e, por duas gestões, Patroa da entidade. “Só assumi o cargo de Patroa quando me senti preparada. Vinha observando e participando de tudo o que acontecia dentro das nossas tradições. Cada patrão que me antecedeu foi um aprendizado. O maior desafio foi coordenar tudo e, ao mesmo tempo, manter viva a essência do tradicionalismo em cada decisão.”
Além de cargos administrativos, Marite dedicou-se intensamente à formação de grupos e à transmissão de conhecimento às novas gerações. “Sempre fui uma estudiosa do tradicionalismo e das danças. Como coordenadora das Invernadas do CTG, acompanhei todos os ensinamentos dos professores e coreógrafos que por aqui passaram. Temos que estar constantemente atentos às mudanças, mas sem perder a essência do que somos.”
Ela também refletiu sobre a evolução do movimento tradicionalista. “O tradicionalismo gaúcho está em constantes mudanças. Ele busca sobreviver e florescer, adaptando práticas aos costumes atuais, mas a essência permanece: preservar e valorizar os costumes que formam a identidade do povo do Rio Grande do Sul. Quanto às danças, há sempre um processo de atualização e aprimoramento, com o Movimento Tradicionalista Gaúcho atuando como órgão normativo, equilibrando tradição e inovação, inspirando novas gerações.”
Entre suas conquistas mais marcantes, Marite destaca a Escolinha da Tradição, que leva seu nome e atualmente atende 75 alunos. “Hoje continuo trabalhando com crianças desde os 4 anos, e cada apresentação dessas invernadas é uma grande conquista. O objetivo maior do meu trabalho é ensinar respeito ao próximo e amor à cultura gaúcha. É muito gratificante ver que consegui passar esse amor que sinto pela tradição.”
A decisão de encerrar a trajetória neste ano foi tomada com reflexão. “Quando me aposentei da escola, em 2018, depois de atuar por 26 anos como diretora na Escola Adelina Zanchi, senti muita tristeza por não ter mais aquelas crianças com quem convivia todos os dias. Mas muitas delas eu passei a reencontrar nos ensaios de dança, o que era muito importante para mim. Mas este ano, sinto que a energia não é mais a mesma. É hora de passar este cargo para pessoas mais jovens. Posso até ter sido egoísta em permanecer por tantos anos sem dar oportunidade a outros de dar continuidade.”
Ao olhar para trás, ela expressa gratidão e emoção. “Sou grata a Deus, aos pais e aos alunos que conviveram comigo todos esses anos. É emocionante ver ex-alunos trazendo seus filhos para os ensaios. Sentimos o carinho e a amizade que ficaram em nossos corações. O sentimento é de dever cumprido, mas também sei que vou sofrer ao encerrar este ciclo.”
Para Marite, a dança tradicionalista é essencial. “A dança me dá vida. Ela retrata os usos e costumes do povo gaúcho, enaltece o respeito à mulher, à história e à família, e é transmitida de geração em geração. Fortalece os laços familiares, quando vejo os avós dançando com os netos. Sempre vou me lembrar daqueles que me levaram a conhecer este caminho da dança.”
Ao resumir sua trajetória, Marite destaca o legado humano e cultural. “Acredito que, em toda minha trajetória, proporcionei um ambiente acolhedor e inclusivo. Trabalhar com as diferenças sempre foi um desafio gratificante, que me fez crescer e ser uma pessoa melhor.”
Ela deixa uma mensagem final para a comunidade. “Que o orgulho de ser gaúcho nos guie sempre no caminho da tradição e da amizade. Nas invernadas mirim, não se trata apenas de reviver o passado, mas, como acentua Barboza Lessa, de resgatar do passado a esperança perdida.”
Aproveitando o Mês Farroupilha, o Jornal Cidades do Vale foi conhecer mais sobre a sua trajetória
Nascido em Pelotas, João Luiz Nolte Martins, o Joca Martins, é considerado um dos maiores nomes da música gaúcha. Atualmente, vive em Faxinal do Soturno com a esposa, a cantora e empresária Juliana Spanevello, e as filhas Maria Laura, de 12 anos, e Maria Cecília, de 6. Aproveitando o Mês Farroupilha, o Jornal Cidades do Vale foi conhecer mais sobre a sua trajetória.
O contato com a música começou cedo, inspirado pelo avô, que tocava gaita. “Eu brinco que ficava em roda, mais atrapalhava ele do que cantava, mas desde pequeno tive esse contato. Pelo meu gosto e interesse, e também por vê-lo, certamente foi um conjunto que me inspirou a me dedicar à música”, lembra.
Assim como muitos artistas, Joca iniciou pelos festivais, que eram a principal porta de entrada para o mercado. “Com 18 anos participei do meu primeiro festival, em Pelotas, no Festival Charqueada. Cantei pela primeira vez no auditório do Colégio Gonzaga. A partir daí fui participando de outros, em várias regiões. Os festivais contavam muito com o apoio da mídia, principalmente do rádio, que era o principal meio de divulgação”, relata.
O passo decisivo veio em 1995, com a gravação do primeiro CD. Para Joca, esse foi o marco inicial da carreira profissional. “Com o primeiro trabalho entendi a seriedade do que estava fazendo, que isso seria a minha carreira. Gravar na época era muito diferente de hoje: precisávamos convencer a gravadora, havia todo um processo de produção, e até ter o CD em mãos demorava. Depois vinha a etapa da divulgação, levar nas rádios, que tocavam as músicas e nos abriam espaço para shows e apresentações.”
Comparando os tempos, Joca ressalta que a tecnologia mudou o acesso à música. “Hoje se faz uma música, coloca nas plataformas digitais e qualquer pessoa do mundo tem acesso. Antigamente não. Dependíamos do CD físico, o que limitava o reconhecimento. Por isso, os primeiros shows eram em cidades próximas a Pelotas. O alcance das rádios era fundamental para que o artista fosse conhecido.”
Mais de 20 anos depois, o cantor avalia a caminhada com gratidão. “Mudou muita coisa desde o começo. Hoje sou conhecido, aprendi a ser mais objetivo nos trabalhos, mais assertivo. A gente aprende com as experiências. Mas tudo que aconteceu nesse tempo foi importante para que eu seja o Joca de hoje.”
A longevidade na carreira, segundo ele, é resultado de um trabalho consistente e conectado com diferentes públicos. “Busquei me consolidar em várias faixas etárias. Os temas dos meus trabalhos permitiram isso. Canto o ‘Cavalo Crioulo’, por exemplo, que ultrapassa gerações, e também gravei sucessos da música gaúcha em versões atualizadas. Isso me mantém presente para pessoas de todas as idades. Muitos me dizem que começaram a ouvir meu trabalho quando eram crianças e até hoje seguem acompanhando.”
A mudança para Faxinal do Soturno aconteceu após o relacionamento com Juliana. “No início ainda ficamos nessa ponte aérea Pelotas/Faxinal. Mas depois, por uma questão afetiva, e também pela logística, vim morar aqui. Estar no centro do Estado facilita, porque qualquer lugar fica a, em média, 300 km de distância”, explica.
Durante o Mês Farroupilha, Joca chega a fazer até 25 shows. “É uma maratona. Muitas vezes viajamos 10 horas e ficamos no palco 2. A logística exige muito. Tem dias que acordo e não lembro em que cidade estou. Mas é o mês em que as pessoas vivem mais a cultura, estão mais emotivas e receptivas. Por isso, me empenho para que cada apresentação proporcione a melhor experiência possível.”
Sobre o futuro da música nativista, Joca é otimista. “Felizmente já tivemos umas duas levas de novos artistas diferenciados que vão dar sequência ao trabalho. São cantores de qualidade, com grande aceitação. Isso garante que o movimento não morra, mas se renove e acompanhe cada período.”
Foi trilhando as estradas do sul do Brasil, desde 1986, entre festivais e apresentações, que Joca conquistou, além do carinho do público, diversas premiações. Entre elas, destacam-se o Troféu Guri do Grupo RBS (2017), o Prêmio Vitor Mateus Teixeira "Teixeirinha" de Melhor Cantor (2005), o Prêmio Açorianos de Melhor Intérprete (2012), além de dois Discos de Ouro pelos álbuns Cavalo Crioulo e Clássicos da Terra Gaúcha. Já levou seu canto à Argentina, Uruguai e Paraguai, e em 2018 e 2024 se apresentou nos Estados Unidos, em Orlando, na Flórida, durante o encontro da Federação Americana de Tradicionalismo. No mesmo ano, recebeu em Pelotas o título de Cidadão Emérito.
Atualmente, Joca está na estrada com o show Clássicos do Nativismo, que estreou em julho de 2025 no Multipalco do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, e no Teatro Simões Lopes Neto, em Pelotas. O cantor foi citado pelo poeta e payador Jayme Caetano Braun como “um intérprete que possui o indispensável ao cantor crioulo: a autenticidade”. Entre seus grandes êxitos estão as composições Domingueiro, Se Houver Cavalo Crioulo, Barulho de Campo, Corcoveando e Recuerdos da 28, entre outras.
O agricultor e empresário Ivanio Piovesan Zanon, 45 anos, de Faxinal do Soturno, decidiu inovar neste ano. Ele substituiu parte da lavoura de trigo pela canola, cultura de inverno que vem ganhando espaço no Rio Grande do Sul.
A escolha foi motivada principalmente pela queda da rentabilidade do trigo. “Sempre cultivei trigo. Só que, em virtude da baixa rentabilidade, acabei optando por outra cultura de inverno. Foi aí que me veio a ideia de plantar canola”, explica Zanon.
Ivanio plantou 60 hectares e, apesar das dificuldades enfrentadas, com excesso de chuvas, principalmente durante o plantio e desenvolvimento inicial, ele estima uma produtividade entre 25 e 30 sacos por hectare. “A produtividade pode chegar a 45 ou 50 sacos por hectare em condições ideais. Mas, neste ano, acredito que a média fique em torno de 30 sacos. Mesmo assim, diante do clima, já considero um resultado interessante”, avalia.
Zanon explica que a canola é uma cultura que exige mais precisão em relação a equipamentos e insumos, especialmente na fase de plantio. “O plantio dela é bem complicado, diferente de trigo ou aveia. A população de sementes é muito baixa, entre 2,4 e 2,8 quilos por hectare. Por isso, o equipamento precisa estar muito bem regulado. Qualquer falha faz diferença”, detalha.
A colheita e o transporte também pedem atenção redobrada. “A semente da canola é muito fininha. Se tiver um pequeno furo na carroceria do caminhão, você pode descarregar o caminhão inteiro antes de chegar na cooperativa. Então, precisa de maquinário regulado e bem vedado, senão a perda é grande”, exemplifica.
No manejo, a cultura se mostra mais econômica do que o trigo, já que exige menos aplicações de defensivos. “Uma lavoura de trigo hoje precisa de no mínimo três ou quatro aplicações de fungicida. Já a canola, geralmente, uma só. Ela pede insumos específicos, mas a quantidade de pulverizações é bem menor. Não precisa estar entrando na lavoura a cada duas semanas como no trigo”, compara.
Para além da técnica, Zanon ressalta que a agricultura também depende de dedicação e esperança. “Na agricultura, como em tudo na vida, a gente precisa, primeiramente,gostar do que faz, fazer bem feito e ter fé. Fé de que a natureza vai responder, de que todo o esforço vai ser recompensado. Em primeiro lugar, é isso: capricho no que se faz, fé em Deus e no que plantou”.
Em termos de retorno financeiro, o agricultor prefere aguardar o resultado da safra para avaliar. “Não dá para saber ainda, porque é o meu primeiro ano nessa cultura. Mas, conversando com outros produtores da região Noroeste, que já produzem há bastante tempo, todos afirmam que sim, a canola é uma alternativa viável em comparação ao trigo”, afirma. Além de ser proporcionar uma beleza única, na sua fase de florescimento.
Zanon garante que pretende seguir apostando na canola nos próximos anos. “Não tenho como expandir porque já planto praticamente toda a área destinada para cultura de inverno. Mas pretendo continuar, sim. Este ano foi péssimo para implantação da lavoura e, mesmo assim, a canola se mostrou resistente e com bom desenvolvimento. Isso me dá confiança de que, em condições melhores, ela pode render muito mais”, projeta.
Ele ainda enfatiza o acompanhamento técnico da Camnpal, que presta todo apoio para o cultivo, bem como o recebimento dos grãos.
Sobre a canola
A canola é uma cultura de inverno cada vez mais presente no cenário agrícola brasileiro, especialmente no Rio Grande do Sul. Pertencente à família das brassicáceas, a planta é cultivada principalmente para a produção de óleo vegetal, considerado um dos mais saudáveis para consumo humano por conter baixo teor de gordura saturada e ser rico em ômega 3 e 6. Além disso, seus grãos também dão origem ao farelo de canola, utilizado como fonte de proteína na alimentação animal.
A ERS-348, que liga Dona Francisca a Agudo foi severamente danificada em função das enchentes de maio de 2024. Diversos trechos do asfalto foram levados com a força da água, além das cabeceiras das pontes secas.
A reportagem do Jornal Cidades do Vale foi apurar em que situação se encontra a obra de reconstrução da via 13 meses depois do fato. O Governo do Estado anunciou investimento de R$ 1,2 bilhão em obras de resiliência climática em estradas e pontes do Rio Grande do Sul afetadas pelas enchentes de 2024, entre elas a 348, mas até então, foram colocadas apenas placas de sinalização de obras, mas máquinas e canteiros de obra não existe no local. Para deslocamento, as pessoas usam o desvio de estrada de chão, como alternativa. Confira o que dizem as pessoas que são diretamente afetadas.
O que diz o Daer?
A reportagem do Jornal Cidades do Vale entrou em contato com o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer). Confira na íntegra as respostas recebidas na manhã de quinta-feira (12):
JCV - Qual a data de previsão das obras?
Daer - Início previsto para o 2º semestre de 2025.
JCV - Em relação ao projeto, quais as principais modificações comparado a via que foi levada com a enchente (Mais pontes?)?
Daer - A obra será por Regime de Contratação Integral (RCI), ou seja, a empresa será responsável pelo projeto e pela execução das obras. Neste momento está sendo desenvolvido o projeto, assim que for finalizado poderemos dar mais detalhes.
JCV - Haverá uma divisão nas empresas. Uma com pontes, outras com a via?
Daer - A contratação é de um consórcio de empresas. O Daer trata somente com a empresa líder.
JCV - Qual o prazo para finalização das obras?
Daer - A conclusão está prevista para 2026.
JCV - Qual o total da extensão da via que passará pela recuperação (Dona Francisca/Agudo especificamente)?
Daer - Todo o trecho.
JCV - Valor do investimento da obra?
Daer - O investimento previsto é de R$ 170 milhões.
JCV - Algo que seja necessário ser levado a conhecimento da população:
Daer - Neste momento, nada em específico.
O que diz o prefeito de Agudo, Luís Henrique Kittel?
O prefeito Luís Henrique Kittel salientou os prejuízos diretos que o município tem em função da destruição da via. “O município de Agudo foi diretamente afetado. Temos um comércio muito prestigiado pela região da Quarta Colônia, e agora o deslocamento via desvio acaba sendo um impeditivo para as pessoas virem, embora, atualmente ele esteja em total condições. Mas no começo, até pelo fato da estrada ter ficado abaixo da água, o reparo exigiu muito trabalho. Tivemos intervenção no Estado, no fechamento de um buraco maior que se formou. E esporadicamente a prefeitura de Dona Francisca também colaborou, mas o restante todo o trabalho foi feito via Agudo”.
Kittel destaca a importância da obra. “A obra de reparo é essencial, de importância regional. Não pode ser de interesse político nenhum e sim público. Até hoje, nunca fui procurado como prefeito pelo Estado, para conversar sobre a obra. O que teve sim, foi um convite em janeiro para assinatura dos lotes, e uma engenheira esteve aqui no gabinete, se apresentando como responsável pela obra. E me disse na oportunidade que buscava onde morar, e também acomodação para os funcionários da empresa, mas isso já tem mais de mês, e é isso que eu sei, sobre a reconstrução da ERS-348”, afirmou ele.
O que diz o Mauricio Barchet, presidente da Associação Comercial, Industrial de Agudo (Acisa)
O presidente da Acisa, Maurício Barchet, reforçou o que disse o prefeito Kittel, em relação ao comércio. “Fomos totalmente impactado, historicamente temos um comércio forte, que é referência na Quarta Colônia, e sem a ERS-348, o deslocamento fica mais difícil, as pessoas acabam não vindo, por medo de passar no desvio, embora a manutenção ocorre com frequência ali, mas tem gente que prefere não passar. Além disso, nós somos conhecidos por eventos, logo teremos a VolksFest, temos os jogos da AAGF, a gente sabia de pessoas que vinham dos municípios da região e hoje não vem mais. A obra é necessária, a gente aguarda, os comerciantes nos cobram, e adianto que não tendo movimentações mais concretas sobre o início dos trabalhos, também vamos nos organizar e nos mobilizar para chamar a atenção das autoridades”, disse ele.
Depoimento de quem usa o desvio:
Mônica Dall Asta - Diretora da Escola Luiz Germano em Agudo, moradora de Faxinal do Soturno, usa o desvio todos os dias
Mônica é faxinalense, e há sete anos trabalha em Agudo. Em entrevista a reportagem do Jornal Cidades do Vale, ela destacou as dificuldades no deslocamento sem a rodovia. “No começo, eu fazia a volta pelo Santuário, não dava para passar no desvio, depois conforme foram fazendo os reparos eu comecei a usar. Mas a gente percebe que temos mais gastos com manutenção do carro, por exemplo, além do tempo, tem que passar mais devagar. A gente que passa todos os dias constata que o movimento é grande, muitas pessoas precisam, então é uma obra urgente e muito necessária. Quando vi as placas de sinalizações, pensei agora vai, mas já faz mais de mês que foram colocadas e não vimos mais nenhum tipo de movimentação que remetesse a obras”, afirmou.
Natália Helena Sari - Servidora pública de Agudo
Natalia vive a mesma realidade de muitas pessoas, que usam o desvio todos os dias, pelo fato de morarem em um município e trabalharem em outro. Ela salienta, o que mudou na rotina depois que a via ficou totalmente danificada. “Fazia como a maioria no começo, vinha para Agudo via Santuário, RSC-287, mas depois com o desvio em melhores condições passei a vir por ali. Fazer a volta demanda de muito tempo, triplica a quilometragem, então é praticamente inviável para quem tem que fazer isso todos os dias. Precisei colocar uma proteção embaixo do meu carro, para evitar danos, e passo no desvio com muita cautela. A gente pode dizer que ele está em perfeitas condições, tem manutenção, mas tem que situações que fogem disso, os dias de chuva por exemplo, o terreno é baixo, tem lavouras dos dois lados, a água acumula e vai para a estrada, vira um caos em dias de chuva. Estou ansiosa pelo início das obras, que a gente sabe que precisará de muito trabalho, foram vários pontos afetados, entendo a morosidade do serviço público, mas penso, que é uma via importante na região, e precisa ser vista com mais atenção pelas aturidades”, disse ela.