Uma ideia aparentemente simples tem ganhado significado e chamado a atenção em Dona Francisca. O cineasta Ricardo Zimmer passou a registrar mulheres franciscanas nas janelas de suas casas, criando uma série de imagens que une fotografia, memória, cotidiano e simbolismo.
A inspiração, no entanto, vai muito além da fotografia. Zimmer conta que as janelas sempre fizeram parte de seu olhar e de sua relação com os lugares que visita. “Eu sempre gostei de janelas. Janela é uma coisa que é uma simbologia estética minha. Eu gosto da janela. Então, quando eu chego num lugar, numa cidade, a primeira coisa que eu olho é a janela”, relata.
O cineasta lembra que essa relação ficou ainda mais evidente durante uma viagem a Paris. “Quando eu cheguei em Paris, no hostel que eu fiquei, eu abria as janelas. Então, o que eu vi? Os telhados, os gatos, o cheiro daquelas padarias. Aí eu disse: meu Deus, estou realmente em Paris”, recorda.
As experiências vividas no interior da Bahia também contribuíram para a construção da ideia. Segundo Zimmer, em cidades como Macajuba e Itaberaba, é comum encontrar mulheres nas janelas das casas, conversando, costurando, fumando ou simplesmente acompanhando o movimento das ruas. “Lá tem uma cultura das pessoas ficarem nas casas. São casas pequenas, bairros de casas baixas, bem simples, e as mulheres ficam nas janelas conversando. Passa um dia ali, ou fumando, ou até costurando e tal, nas janelas. Então, eu sempre quis fazer um ensaio fotográfico nessa questão das janelas”, explica.
Ao observar a arquitetura e o cotidiano de Dona Francisca, Zimmer percebeu que o município também oferecia o cenário ideal para desenvolver o projeto. “Dona Chica tem muitas casas, muitos casarios também, que as janelas ficam abertas, e as pessoas ficam falando pelas janelas, conversando pela janela, chamando um e outro”, afirma.
A proposta também carrega referências à cultura italiana, presente na formação histórica da região. “É uma coisa também um pouco italiana. O italiano tem muito essa coisa de pendurar a roupa na janela, de conversar nas janelas”, comenta.
O primeiro registro que deu origem à série foi feito com uma integrante da própria família. “Eu ressurgi com uma foto da Judite Segabinazzi, nossa prima, da família. Ela estava na janela e eu vou tirar uma foto sua. E aí começou toda uma ideia de fotografar as franciscanas, nas janelas das suas casas”, conta.
A partir daí, cada fotografia passou a ganhar elementos próprios. Em algumas imagens aparecem buquês de flores; em outras, roupas coloridas e objetos que ajudam a compor a cena. A intenção, segundo o fotógrafo, é transmitir uma mensagem positiva. “Essa janela representa um pouco a felicidade, representa um pouco esse olhar para o futuro, para as coisas boas. Eu penso pelo lado positivo da vida”, destaca.
O projeto também acabou criando uma interação espontânea com as mulheres fotografadas. Depois que as imagens começaram a ser publicadas nas redes sociais, outras moradoras passaram a procurar Zimmer para participar.
“Eu já tenho muitas fotografadas, e é tão interessante que agora elas me pedem. ‘Vamos fotografar?’, ‘Agora elas me pedem para serem fotografadas’. Eu coloquei no Face, e aí: ‘Ah, eu quero uma foto minha na janela, eu quero minha foto na janela’”, relata.
Para Zimmer, mais do que produzir retratos, a iniciativa se transformou em uma forma de interação e de valorização do cotidiano franciscano. “Você vê que é uma coisa bem bacana de você interagir. Uma ideia simbólica, da janela das nossas casas, um elemento cotidiano das casas em um espaço de memória, identidade e expressão”, resume.