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"Continuo com a mesma gana de quando comecei", diz Joca Martins 

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Faxinal Do Soturno 19/08/2026
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Cantor fala sobre os 40 anos de carreira, a infância, a família, os desafios e os sonhos que ainda pretende realizar

Em outubro deste ano, João Luiz Nolte Martins, o Joca Martins, completa 40 anos de carreira. Natural de Pelotas, o cantor é considerado um dos principais nomes da música gaúcha e, ao longo de quatro décadas, construiu uma trajetória marcada por festivais, discos premiados, reconhecimento nacional e internacional e uma forte ligação com a cultura do Rio Grande do Sul.

Hoje, Joca vive em Faxinal do Soturno ao lado da esposa, a cantora e empresária Juliana Spanevello, e das filhas Maria Laura, de 13 anos, e Maria Cecília, de 7. Entre um chimarrão e outro, recebeu a reportagem da Rede Jauru para relembrar a caminhada que começou ainda na infância.

O primeiro contato com a música veio dentro de casa. O avô, que tocava gaita, despertou o interesse do pequeno Joca. Pouco tempo depois, aos seis anos, um desenho reforçou ainda mais essa ligação. "O contato com a música começou cedo, inspirado pelo meu avô, que tocava gaita. Outro ponto marcante foi quando participei, na escola, de uma atividade chamada Iniciação Musical, com a professora Nara Duval. Eu tinha seis anos e ali comecei a ter o primeiro contato direto com a música. A gente fazia apresentações com músicas infantis. Sempre digo que isso nasceu em mim, porque outra lembrança muito forte foi quando eu estava desenhando em casa. Fiz um gato com um violão e escrevi, como se ele estivesse cantando: 'É por isso que canto amor'. Acho que esses três momentos foram marcantes para eu entender, hoje, por que segui a carreira musical."

Na adolescência, a música já ocupava boa parte da rotina. Durante o ensino médio, o violão muitas vezes falava mais alto do que a sala de aula. "Não é um bom exemplo, mas às vezes a gente espichava o intervalo e ficava no CTG, em volta do fogo, dedilhando, aprendendo. Éramos todos uns guris."

 

Os festivais abriram as primeiras portas
Como aconteceu com grande parte dos artistas da música regional, os festivais foram o caminho natural para ganhar experiência, visibilidade e conquistar espaço.

A estreia aconteceu aos 18 anos, no Festival Charqueada, em Pelotas. A apresentação no auditório do Colégio Gonzaga marcou o início de uma sequência de participações em eventos espalhados pelo Rio Grande do Sul, período em que o rádio era o principal elo entre os artistas e o público.

Enquanto a carreira dava os primeiros passos, Joca contou com um incentivo decisivo dentro de casa. "Eles topavam tudo, me apoiavam em tudo, era incrível. Até hoje é assim. Sei que muitos pais têm receio quando os filhos querem seguir uma carreira artística. Acho que eu também teria se minhas filhas me dissessem isso. Mas meus pais estiveram comigo desde o início. Esses momentos da infância, o apoio deles e o gosto que sempre tive pelas coisas do campo foram fundamentais para eu acreditar que podia viver da música."

 

A escolha entre o canto lírico e a música gaúcha
Antes de ingressar na faculdade de Música, Joca precisou passar por um teste de aptidão. Para isso, iniciou aulas de teoria musical e acabou descobrindo um novo universo. "Precisava aprender a ler as notas musicais, então fui fazer um curso. Foi ali que também tive contato com o canto lírico. Na época nem me dei conta da importância disso, mas depois, na faculdade, percebi que tinha condições técnicas para seguir nesse caminho."

Apesar da afinidade, a realidade do mercado fez com que precisasse escolher. "Eu gostava do canto lírico, me dava bem, mas fui percebendo que era uma área muito restrita. Em Curitiba conversei com pessoas de várias partes do país e entendi que, para viver disso, praticamente teria que seguir no canto coral ou morar fora do Brasil, onde esse estilo é mais valorizado. Então voltei para aquilo que sempre esteve comigo: a tradição gaúcha. Foi ali que decidi qual seria o meu caminho."

 

O primeiro disco mudou tudo
A gravação do primeiro álbum, em 1995, representou o início da carreira profissional. 

Foi naquele momento que Joca percebeu que a música deixava de ser apenas um sonho para se transformar definitivamente em profissão. Na época, gravar um CD exigia convencer gravadoras, enfrentar um longo processo de produção e, depois de pronto, percorrer rádios e veículos de comunicação para apresentar o trabalho ao público.

 

A cavalgada que transformou sua carreira
Se existe um momento capaz de dividir a carreira de Joca Martins entre antes e depois, ele aconteceu em 2002. Determinado a romper a dificuldade enfrentada por artistas do interior para conquistar espaço na Capital, ele decidiu transformar um sonho em realidade.

"Na vida eu sempre fui muito a fundo. Nunca gostei de fazer as coisas por fazer. Sempre achei que tudo precisava ter um conceito e um contexto. Em 2002 sonhei que levava meu disco para Porto Alegre a cavalo para divulgar o trabalho. E fiz exatamente isso. Saí de Pelotas e fui até Porto Alegre. A mídia da Capital se interessou. Zero Hora, as rádios do Grupo RBS, a Rádio Rural, onde eu fazia boletins diários durante a viagem. Foi ali que eu consegui furar essa bolha e fiquei conhecido de verdade."

 

Discos de ouro e músicas que atravessam gerações
A estratégia de escolher temas ligados ao cotidiano do homem do campo também contribuiu para consolidar sua carreira. Em 2003 lançou Clássicos da Terra Gaúcha, álbum que conquistou Disco de Ouro e reúne algumas das músicas mais executadas até hoje. No ano seguinte veio Cavalo Crioulo, outro grande sucesso que também recebeu Disco de Ouro. "As músicas sempre eram pensadas na rotina das pessoas e no motivo que faria alguém querer ouvi-las. Naquela época, conquistar um Disco de Ouro tinha um significado muito grande porque era baseado na venda de CDs. Depois vieram o MP3, mais tarde, as plataformas digitais, que mudaram completamente o mercado."

Segundo o cantor, a forma de consumir música mudou radicalmente nas últimas décadas. "Hoje a gente grava uma música e ela pode ser ouvida em qualquer lugar do mundo no mesmo instante. Antigamente dependíamos do CD físico e da força das rádios. Os primeiros shows eram sempre perto de Pelotas, porque era onde o trabalho chegava."

 

Faxinal do Soturno virou lar

A mudança para Faxinal do Soturno aconteceu após o relacionamento com Juliana Spanevello. "No começo ainda fazíamos essa ponte aérea entre Pelotas e Faxinal. Depois, por uma questão afetiva e também pela logística, resolvi morar aqui. Estar no centro do Estado facilita muito, porque praticamente qualquer lugar fica a cerca de 300 quilômetros."

 

Quatro décadas de música

Ao longo da carreira, Joca Martins gravou 22 discos, quatro DVDs, conquistou dois Discos de Ouro e lançou dezenas de músicas nas plataformas digitais.

Também acumulou importantes reconhecimentos, como o Troféu Guri, do Grupo RBS (2017), o Prêmio Vitor Mateus Teixeira – Teixeirinha de Melhor Cantor (2005), o Prêmio Açorianos de Melhor Intérprete (2012), além do título de Cidadão Emérito de Pelotas, recebido em 2024.

Levou sua música para Argentina, Uruguai, Paraguai e também aos Estados Unidos, onde se apresentou em 2018 e 2024 durante o encontro da Federação Americana de Tradicionalismo, em Orlando.

Entre os principais sucessos da carreira estão Domingueiro, Se Houver Cavalo Crioulo, Barulho de Campo, Corcoveando e Recuerdos da 28.

 

Novidades para celebrar os 40 anos

Para marcar as quatro décadas de carreira, Joca prepara uma série de ações especiais. A principal delas é o lançamento de uma música por mês. A primeira já chegou às plataformas: uma nova versão de Recuerdos da 28.

Outra homenagem deve repetir um dos momentos mais emblemáticos de sua trajetória. Em novembro desde ano, o cantor pretende refazer a cavalgada entre Pelotas e Porto Alegre, revivendo a viagem que impulsionou sua carreira em 2002.

"O sentimento é de muita alegria. Amadureci, mas continuo com a mesma vontade e a mesma gana de quando comecei. Acho que sempre dá para evoluir, buscar mais. Quero continuar valorizando a tradição, realizar projetos novos e espero ter saúde para seguir fazendo aquilo de que sempre gostei. Tenho me cuidado mais nos últimos tempos justamente para continuar na estrada. Dividir o palco com grandes artistas, Renato Borghetti, Gaúcho da Fronteira por exemplo, me faz entender que eu cheguei lá e isso não tem preço, tem valor".

 



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